natalia mallo

Black Grace | Sanitise – Edinburgh Fringe

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Black Grace

A companhia neozelandesa apresentou trechos de suas criações recentes e não tanto. Abriram cada número com uma fala do diretor, que deixou claro o caráter autobiográfico das coreografias e temas. Por ser uma colagem separada por falas, pareceu mais uma amostragem do que um espetáculo, mas o carisma dos bailarinos e os números de impacto conquistaram a platéia logo de cara que aplaudiu em cena aberta todos os números. A dança bastante ancorada na percussão corporal, no virtuosismo acrobático e rigor técnico e nos inúmeros uníssonos poderia ser de um formalismo enfadonho se não fosse executada com tamanha alegria. Muitas referências aos rituais e folclore deixam uma impressão de estar se vendo um produto ‘for export’, mas é exatamente isso que os neozelandeses (e todo o resto) estão buscando no Fringe, plataforma para exportar seus artistas para o mundo. Portanto isso não me parece criticável neste contexto. Mas fica a vontade de ver um espetáculo inteiro, sobretudo o citado com um ato de coreografias inspiradas na linguagem corporal do flerte.

Obs: Tive que sair 5 minutos antes do fim, durante um lindo solo, devido a uma emergência (nunca tome um pint de stout logo antes de ver um espetáculo longo). Em busca do banheiro, invadi sem querer o backstage, onde vi os bailarinos que não estavam em cena aquecendo a próxima coreografia. Ninguém estranhou minha presença, e fiquei parada ali assistindo com deleite o aquecimento, onde pude ver um estado de descompromisso não-cênico nos bailarinos que me hipnotizou. Pensei em como muda o estado do intérprete na presença do público e por que às vezes gosto mais de ver ensaios do que espetáculos. Ganhei um sorriso e uma piscada e corri pro banheiro mais próximo.

 

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Sanitise

Uma mulher obcecada por limpeza em um banheiro cenográfico. Espelho, privada e banheira. Ela suspira de amor pelo branco impecável. Trilha sonora pop e efeitos sonoros. Um monstro de mofo ameaça de dentro da banheira, na forma de uma luz verde. Ela vai lá e limpa. O vídeo (projetado na privada, na cortina e no próprio corpo) nos conta que ela é apaixonada por um colega de trabalho, John, e sonha em passear com ele de mão dada. Por conta dessa paixão, pasa a cultuar um sanduiche mofado que um dia foi dele. Após uma tentativa frustrada de incorporar o fetiche da dominadora (com direito a chicote e salto altíssimo), entra num surto e faz uma dança erotizada segurando grandes crostas de mofo (aquele monstro de debaixo da banheira). Só que o momento foi televisionado e ela é humilhada em público e assediada por homens que babam sem parar (novamente, o vídeo). Passado o clímax dessa angústia, ela volta a limpar todo o banheiro e finalmente descansa em paz. A história surreal é contada apenas com dança, teatro físico e vídeo. A triangulação com a platéia é constante e a atriz, de olhar cortante e sorriso irônico, está sempre no registro da inadequação e do patético, o que gera uma empatia e um riso, ora solto ora constrangido. Dá o que pensar. A insanidade, o produto químico, o papel da mulher de tornar o espaço imaculado, a fantasia escondida num canto úmido e escuro, a exposição de viver a própria sujeira e expô-la ao mundo, a vergonha de ser o que se é, o refúgio da assepsia.

 

 

 

 

 

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Author: Natalia Mallo

Artist, curator and entrepreneur.

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